Incêndios Bordéus. Emigrantes "sentem-se abandonados" pelo Governo português
O sentimento de abandono do Governo de Lisboa está a ser transmitido por Valdemar Félix, conselheiro municipal de Lormont. O conselheiro das comunidades discorda desta leitura.
O autarca Valdemar Félix disse hoje à Lusa que há emigrantes afetados pelos incêndios em Bordéus, França, que se sentem "abandonados" pelo Governo português, enquanto o conselheiro das comunidades Filipe Dantas admite não ser necessária ajuda portuguesa.
"Lamento que o Governo português não esteja mais próximo", razão pela qual existe "um sentimento de abandono", declarou o conselheiro municipal de Lormont Valdemar Félix, sublinhando que este foi o sentimento transmitido pelos portugueses afetados no Centro de Exposições de Bordéus, com os quais se encontrou.
Segundo o antigo conselheiro da comunidade portuguesa na região, os portugueses aguardam uma "palavra de conforto através do consulado ou da embaixada".
"Há uma grande preocupação das famílias portuguesas, provenientes da vila Le Porge", comuna francesa na Gironda onde cerca de 20% da população é portuguesa, disse, acrescentando que é uma das localidades mais afetada e onde "há famílias que perderam as suas casas".
O autarca relatou que o Coletivo Associativo Girondino, que engloba cerca de 24 associações, está a "preparar o terreno" para apoiar as populações na fase pós-incêndio, numa altura que os bombeiros perspetivam que a extinção total possa demorar.
Félix apelou ainda ao bom senso dos condutores nas vias alternativas à autoestrada A63, uma das principais vias para quem segue em direção a Espanha e Portugal, que se encontra cortada.
Por outro lado, o conselheiro das Comunidades Portuguesas em Bordéus Filipe Dantas declarou que, "até ao momento, não é necessária a ajuda das autoridades portuguesas".
"Estou em contacto com o cônsul aqui de Bordéus. Não há necessidades nenhumas, a gente não pede nada, não há problemas nenhuns", afirmou, assegurando que "as autoridades francesas estão a tratar disso e eles [os afetados] estão contentes".
Filipe Dantas adiantou ainda que a vila de Lacanau foi evacuada esta manhã.
No terreno, a solidariedade também se faz notar, como é o exemplo do emigrante português Fernando Rocha, de 42 anos, que tem uma empresa de renovação de casas, reside no norte da Gironda e tem ajudado as autoridades francesas a combater o incêndio em Bordéus.
"Se acontecesse comigo, também gostava que me viessem ajudar", disse o emigrante natural de Vouzela, distrito de Viseu, que contou ter vários conhecidos afetados.
Fernando Rocha salientou que a dimensão total dos prejuízos ainda é desconhecida, dado que as zonas evacuadas permanecem inacessíveis, mas antecipa que os seguros devem assumir "grande parte" das perdas, dada a sua obrigatoriedade em França.
O incêndio em França começou na quarta-feira na região turística da Baía de Arcachon e desde sexta-feira que portugueses e lusodescendentes estão a ser transferidos para centros de acolhimento, um número que se estima atingir os 3.000.
No total, este ano foram já queimados em França 115 mil hectares de terrenos, um máximo histórico, confirmou o ministro do Interior francês, Laurent Nuñez, na última noite.